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ARTESÃO AZIVAN GALVÃO

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sábado, 2 de outubro de 2021

COLUNA CLUBE DO FILME COM MARY QUEIROZ

 


Ex-Humanos  

 


Criar em imagens uma ficção científica propondo uma temática reflexiva e que permita ao público a identificação daquilo que é espetacularmente inimaginável, é um desafio que poucos filmes alcançam. Mariana Porto consegue fazer isso em Ex-Humanos entrelaçando uma experiência visual alcançada pela fotografia de Ernesto de Carvalho e trilha sonora sob medida, emprestando suas ideias na construção de um mundo em que humanos e não humanos coexistem no ambiente hostil, dominado pelas regras de um sistema operacional, amarrando sua temática em boas nuances que transmite um aspecto ambiental de tempo e estado interessante, em paradoxo a qualquer registro de boas memórias colhidas no lixo como fonte de alimento. 

No filme, em um futuro distópico, ex-humanos descobrem no cinema uma 

forma de se alimentar com sensações fugazes, restando aos humanos uma adaptação cruel a condições de vida precárias e com fortes  viés de extrema opressão, para satisfazer o desejo dos ex humanos. O aspecto mais interessante do roteiro é a presença constante de elementos de ficção científica, ainda que poucos efeitos especiais sejam usados, especialmente para evidenciar a questão da manipulação das imagens, como alimento para o Ex-Humano (Arthur Schmidt), criando um espetáculo muito atrativo de ser acompanhado. Já com o Humano (Claudio Marino), sua rotina é retratada como uma era de escombros, vivendo às escondidas em meio ao medo, numa  guerra diária pela sobrevivência e rodeado por lixo, única fonte de colher os suprimentos necessários para manter o cinema do Ex-Humano funcionando. É através dos restos eletrônicos que lembranças do passado são trazidas à tona e o publico passa a conhecer o quanto memórias de dias felizes são poderosas em tempos de caos. A Humana (Vera Valdez) é uma personagem complexa, capaz de processar imagens fotográficas, que alimenta os contornos da sociedade decadente, mas resistente. 

Premiado em quatro categorias por Melhor Filme de Ficção, Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Som, na vigésima primeira edição do Festcine, Ex-Humanos mostra que o filme ainda tem muito a conquistar, graças a direção muito segura de Mariana Porto que apresenta todos os elementos importantes da narrativa sem perder o ritmo, valendo-se, dos momentos sem diálogos, algo que acaba valorizando muito o filme, em vista do ar de seriedade que imprime, além de ser eficiente para ampliar a profundidade dos personagens, humanos com certa dose de desespero e ex humano com um aspecto de retrocesso, destacando suas características com closes na sua expressão facial e com diferentes planos detalhes na postura corporal.  Com uma montagem esperta consegue, ao mesmo tempo, passar a impressão de passagem temporal num ritmo lento, que dá ao público tempo para pensar junto com os personagens em uma saída daquele ciclo, causando um sentimento ainda mais imersivo quando som do ambiente, áudio vazado de carros, sirene de ambulâncias e outros sons evidenciam e sugere que mais humanos vivem naquele ambiente, ainda que não apareçam em cena. 

Assustadoramente eficaz Ex-Humanos acerta em ser uma vigorosa ficção científica e se torna um dos filmes mais memoráveis na exibição da 2ª OroCine, provando, mais uma vez, que os filmes independentes com  um roteiro inteligente e direção criativa podem superar qualquer dificuldade na sua realização. Ao seguir por um caminho que explora menos o mundo realista e mais o ficcional, o curta é engenhoso e exibe a fórmula certa para conquistar os amantes do gênero. 

Observação: Crítica produzida junto com o colega de turma Carlos Henrique na Oficina de Introdução à Critica Cinematográfica oferecida pela segunda edição da OroCine.